Se

Se eu te amasse um dia, seria assim: sem barulho. Como um segredo que o vento esqueceu de contar e deixou cair, por descuido, na fresta da janela. Um amor miúdo, quase leve, que anda na ponta dos pés pelos becos escuros onde a gente guarda o que não tem nome. Um rio que faz curvas só para prolongar a demora, que não pede licença para desaguar no mar e que se contenta apenas com o transbordar de ser.

Me pergunto, no silêncio escuro das coisas: tuas mãos saberiam encontrar meus cabelos desmanchados pelo vento? Teu toque na curva do meu vestido traria o espanto de quem toca o mistério, ou seria apenas posse? E tua voz, essa voz que se finge de forte, resistiria ao sussurro das árvores ou se perderia, humilde, no hino secreto da floresta?

Mas, ah, se esse amor viesse de outro jeito — alto, escancarado, banhado pela luz violenta do meio-dia —, eu seria o voo. Seria a asa rasgando o azul do céu em um pacto mudo com o sol. E teus olhos? Teus olhos me seguiriam até essa linha impossível onde o mundo acaba? Teu riso escaparia, menino e selvagem, solto por entre os dentes? Teu peito encher-se-ia não de certezas, mas dessa alegria sem pai nem mãe que a gente não sabe como traduzir?

E se esse dia nunca chegasse, tu perceberias? Notarias que já carregas em ti todos os cacos, todos os mapas: o vento, a poeira da estrada, o beco, o rio, o mar? Cada dobra, cada queda, cada canção que nunca foi cantada? Acharias, mesmo na falta, a centelha do riso, o gosto antigo de uma felicidade qualquer, a promessa de um amor que pulsa, paciente e mudo, à espera de ser?

Se eu te amasse um dia…
Talvez ele nem precise acontecer.
Talvez já seja…

© Beatriz Esmer

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