Ouvindo a Respiração das Coisas

O amor, esse mistério que sangra. Para nós, mulheres que trazemos a lua presa à carne, o amor por si só é insuficiente — um desperdício de silêncio. Exigimos que cada dia enterre seus nós em nossas entranhas e puxe, até que doa, até que sangre a poesia crua dos baixios e das alegrias. Dançamos, sim, na corda bamba do nada, bem na beirada do abismo onde você, por um instante, tombou. Mas a lua cresce, murcha, sangra no céu, e você — inevitavelmente — há de renascer do próprio pó.

Você, criatura rara, carregando esse corpo que não pertence a amante algum, a pai nenhum. Ele é seu, esse território solitário e selvagem. Vista sua dor como quem ostenta as linhas secretas da própria palma da mão, como um xale pesado que protege contra o frio de um mundo sem tempo.

Não chore pelo amor que escorreu por entre os dedos. Ele não se foi; tornou-se um livro antigo cujos versos já se misturaram ao ritmo inefável do seu pulso. Caiu das mãos, mas ficou dentro. É parte de quem somos, nessa desmedida ânsia de existir. ❤️🙏🏾

©️Beatriz Esmer

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