Apesar de Tudo …

Apesar do peso do mundo, que às vezes se abate sobre as costas como uma arquitetura invisível e intransponível — feita de ferro e silêncio —, a gente ainda respira. Há uma fatiga que não é apenas do corpo, mas da alma que já viu o bastante. É o cansaço de ser.

Apesar da apatia dos homens, dessa espécie de sono em vida onde os olhos estão abertos, mas não veem, onde a banalidade do horror cotidiano virou paisagem e rotina, o instante insiste em pulsar. É curioso como o horror tem uma espessura mansa e macia; ele não grita o tempo todo, às vezes ele apenas senta-se conosco à mesa e toma o café frio.

E, no entanto, há uma urgência surda que me desorganiza por dentro, me desmorona.

Porque, por mais que o mundo tente se fechar em sua própria dureza, existe uma centelha idiota e sagrada que não se deixa apagar. É quase doloroso: a beleza insiste em acontecer à revelia de tudo. Um raio de sol cortando o pó da sala, o gosto abrupto de uma fruta, o mistério mudo de existir por um segundo que seja.

Apesar de tudo — e talvez justamente por causa de tudo —, eu continuo. Não por heroísmo, que disso não tenho nenhuma vocação, mas porque a vida, quando decide nos acontecer, não pede licença. Ela simplesmente transborda. ❤️

Beatriz Esmer

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