Era uma vez o deslumbramento pelas palavras, esse sussurro que descama as camadas do ser e me devolve a verdade oculta no espelho da curiosidade. O amor, antes de ser verbo, foi tato: a pele que se encosta, a gravidade nos olhos cansados que travam batalhas silenciosas, e o fogo indomável que brilha naqueles que recusam qualquer cabresto. Era o sagrado escondido no ordinário, a urgência de ser visto naquilo que há de mais cru e visceral na existência.
Depois veio a desmedida, a loucura como companheira de uma tormenta que nunca se aquieta. Aprendi a ninar a indecisão e a abraçar a incerteza como quem acolhe um filho, fazendo morada nas lágrimas teimosas e nos vendavais internos. E quando a chuva despencou sobre mim, compreendi que amar é também o espanto diante do pequeno: a fenda no asfalto onde brota o amargo, o balé distante dos outros e a simples contemplação do mundo que respira.
Caí, porque a vida tem esse ímpeto de rasteira, mas foi no chão duro que descobri a respiração funda dos peitos que sonham. O amor não pedia licença para existir; ele se fazia na pressa do pulso, no sussurro breve, na mão estendida no escuro. E assim, de fios invisíveis e desajeitados, teceu-se essa sinfonia caótica e infinita, onde cada nota, irrevogavelmente, me re-enamora da vida.
© Beatriz Esmer
