O sol de agosto desabou sobre Hiroshima como uma condenação sem julgamento. Era o dia 6 de de 1945. O céu era de um azul cúmplice, ingênuo, quando a cicatriz de luz rasgou o mundo. Em um segundo, a carne virou fumaça e a fumaça virou sombra impressa nas paredes. A cidade deixou de ser geografia e passou a ser assombração.
Três dias depois, Nagasaki. Porque a máquina da morte tinha pressa e o carrasco nunca se sacia com a primeira vítima. O segundo sol despencou dos céus para lembrar aos homens que a crueldade não tem fundo.
Restaram os hibakusha.
Sobreviventes de um inferno feito à mão e à ciência, carregando no corpo a memória calcinada dos que viraram pó. Mas a terra, teimosa, voltou a parir cerejeiras. A vida, que é um desaforo cotidiano, brotou por entre os escombros para ensinar que a memória não serve para alimentar o ódio, mas para desentortar o futuro.
E hoje, enquanto o mundo finge distração, o horror se muda para Gaza. Lá, o mesmo fogo que queimou o Japão desaba sobre os telhados de zinco e as infâncias suspensas. As crianças de Gaza não podem ser cinzas no álbum dos dias comuns.
Lembrar Hiroshima e Nagasaki não é gesto de saudade do luto; é a urgência de gritar que a paz não é um dom dos deuses, mas uma trincheira erguida contra a barbárie. Que o mundo acorde antes que a última flor seja soterrada pela lógica da pólvora.
© Beatriz Esmer
