Há uma casa dentro de nós, um refúgio esquecido nos limites da alma. É um lugar silencioso, talvez solitário, mas tecido de dores e ternuras que o tempo não conseguiu apagar. Suas paredes guardam retratos desbotados, fragmentos de um passado que insiste em pulsar, como fantasmas gentis que habitam o pó dos dias. É o tipo de morada em que os outros raramente entram; olham de fora e supõem que estamos seguros, intactos, inteiros.
Mas, de vez em quando, o silêncio se torna denso demais, quase insuportável. E eu preciso sair.
Preciso caminhar até a minha própria porta e bater. Finjo ser uma visita, alguém que chega sem avisar, despida de cobranças, carregando apenas a necessidade urgente de ser acolhida. Toco a campainha, respiro fundo no umbral e me espreito com a estranheza e o alívio de quem reencontra um velho amor depois de uma longa viagem.
Lá dentro, preparo um café solitário. Sento-me à mesa da cozinha e converso com meus próprios medos, não por desatino, mas por pura piedade de si. É uma conversa calma, escancarada. Pergunto-me como tenho resistido, e respondo com a franqueza que só a nudez da alma permite. Nesse espaço íntimo, o julgamento se dissolve; resta apenas o calor frágil da sobrevivência.
Na maior parte do tempo, sou a única hospedeira e a única visita de mim mesma. E, no fundo, isso me basta.
Nessa casa de memórias, angústias e pequenas esperanças, compreendi que a solidão não é a ausência de tudo, mas a presença violenta e bonita de quem somos. Sou minha própria companhia mais fiel. E isso, afinal, é o único amor que permanece quando o mundo silencia.
© Beatriz Esmer
