Na penumbra do quarto, as sombras dançavam pelas paredes, espelhando a tormenta que habitava o peito. Ela estava sentada junto à janela, vendo o mundo lá fora dissolver-se em borrões de chuva e memória. A voz, um sussurro frágil cortando o silêncio, perguntou: “Como traduzo esta dor em palavras?” As lágrimas brotavam, cada gota um testamento da agonia muda que carregava na alma.
Ele permaneceu ao lado dela, presença que ancorava a tempestade. O olhar, terno e firme ao mesmo tempo, encontrou o dela. “Você não consegue”, respondeu ele, suave como um bálsamo sobre a ferida. “Alguns sentimentos simplesmente não têm idioma.”
Ela o encarou, buscando refúgio naqueles olhos. O peso do que sentia pesava como um manto sufocante, inclemente. Mas, naquelas poucas palavras, havia uma fresta de luz. Era verdade. Certas dores são profundas demais, cruas demais para caberem em sílabas. Elas habitam o intervalo entre os suspiros, nos silêncios compartilhados, no afeto que não pede licença para existir.
Enquanto a chuva insistia em cair lá fora, ela compreendeu: talvez bastasse apenas sentir. Permitir que as lágrimas corressem, abraçar a própria ferida e encontrar abrigo na presença de quem compreende sem precisar explicar. Naquele instante, soube que, mesmo sem nome ou dicionário, sua dor era vista, seu coração era ouvido, e sua alma nunca esteve sozinha.
© Beatriz Esmer
