O Avesso das Asas

E num momento… Abracei o ar. Deixei o peso do corpo em amarras de água e terra. Voei para lá do mar. Eu vi! E pude provar, por valor do pensamento, alvo e leve, magnífico! O encanto de voar…
Há dias em que o chão pesa demais. Carregamos nos ombros o pó dos dias, as contas a pagar, as palavras não ditas que ficam entasadas na garganta como pedras miúdas. A vida, às vezes, é um exercício brutal de gravidade.
Mas há frestas.

Basta um sopro de vento, um clarão súbito na memória ou a coragem mansa de fechar os olhos. E num momento… abracei o ar. O corpo, antes entorpecido pelas urgências do mundo, simplesmente cedeu. Deixei o peso do corpo em amarras de água e terra, devolvendo à matéria o que é da matéria.

Desamarrar-se é um ato de fé. É preciso descer das certezas para conseguir flutuar.

Voei para lá do mar. Vi de cima a imensidão verde-escuro das ondas quebrando em espuma branca, como rendas antigas estendidas na praia. Vi o mundo pequeno, inofensivo, reduzido à sua verdadeira proporção de silêncio e bruma.

Eu vi! E pude provar, por valor do pensamento, o gosto indescritível da liberdade. Não é uma liberdade ruidosa, dessas que batem palmas nas praças; é uma liberdade branca, alvo e leve, que se infiltra na alma como um raio de sol matutino rasgando a neblina. É um estado de graça puro, magnífico, onde o tempo suspende o passo e o coração enfim descansa.

Ah, o encanto de voar… Saber que, por mais fundas que sejam as raízes que nos prendem à terra, guardamos sempre, no avesso do peito, asas invisíveis prontas para nos resgatar de nós mesmos.

© Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.