O Intervalo das Coisas

O silêncio tem uma textura própria, quase de veludo gasto pelo tempo, daqueles que a gente guarda no fundo da gaveta e só ousa tocar nos dias em que o mundo faz barulho demais.

Foi nesse silêncio que me encantei. Não foi por alguém — os amores de fora costumam pedir licença, às vezes chegam arrombando a porta, mas este não era sobre o outro. Nem foi por um grande acontecimento, daqueles que a gente fotografa para provar que esteve vivo.

Me encantei por estar.

Simplesmente estar, com a crueza e a graça de quem respira. Por ser, nessa urgência frágil que é a nossa passagem por aqui.

Foi preciso um certo cansaço das buscas para que eu pudesse, enfim, perceber: há uma beleza imensa, quase secreta, que só se revela quando a gente para de procurar. A gente passa a vida correndo atrás do extraordinário, como quem persegue borboletas no vento, sem notar que o milagre mora bem ali, no intervalo exato entre um suspiro e outro.

É nesse espaço estreito, onde o peito descansa antes de encher-se de novo, que a vida realmente acontece. Sem pressa. Sem ruído. Apenas sendo.

© Beatriz Esmer

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