Meu corpo é esse território barulhento onde o tempo insiste em desabar. Casa não é o tijolo, não é a parede fria que cerca o nada; casa é o emaranhado do meu cabelo, a curva seca dos meus lábios, o peso dos meus braços, o passo incerto dos meus pés e o cansaço destas mãos que tateiam o escuro. Carrego-me comigo como quem carrega um segredo perigoso, porque sou, irremediavelmente, a minha própria morada.
Acordo e há um pranto antigo que me visita antes do sol. É a solidão, pesada como uma lâmina fria, cortando o silêncio da manhã. E para não me perder de mim, para não evaporar nessa bruma, eu me tacho, me provo, me toco. Finco as unhas na minha própria pele num belisco que arde para lembrar que existo. Puxo o cabelo, sinto a dor áspera e real, o corpo gritando contra o esquecimento. Sou eu. Ainda estou aqui.
É preciso abrir a porta e ir ao encontro do dia, esse monstro escancarado que chega sem pedir licença. É preciso avançar, porque tudo é um pulso contínuo, uma dança trágica e bela onde nada permanece estático. Tudo muda, tudo escorre por entre os dedos. E, no meio desse giro cego e incessante, lateja a promessa daquilo que tanto busco, essa coisa inalcançável e urgente a que chamamos de liberdade.
© Beatriz Esmer
