Sou a poeta do Corpo e sou a poeta do Alma, e essa fratura exposta que é viver me dói no osso. Os prazeres do céu deságuam em mim como um suco espesso e doce, mas que carrega o perigo de me afogar na própria luz. Eu os enxerto em minha carne, deixo que vicejem e multipliquem suas raízes até que o meu peito seja pequeno demais para tanta claridade. É um gozo quase insuportável, esse calor que nutre o espírito e me incendeia por dentro, exigindo que eu seja vasta.
Há o reverso. Ah, o inferno. As dores não são apenas suportadas, são mastigadas, digeridas no escuro do meu estômago até virarem outra coisa. Pego essas agruras, esses cacos de vidro da existência, e os traduzo para uma língua secreta que rasga a garganta antes de sair. É uma alquimia feroz: o sofrimento ganha voz, ganha contorno de bicho acuado, transforma-se em um significado profundo que me salva apesar de mim mesma. É nessa corda bamba, nessa tontura entre o divino e o abismo, que eu encontro a têmpera da minha força.
Nesse equilíbrio frágil, eu recolho a gema do que significa estar viva, sentir até a vertigem, dizer o inexprimível que late e sangra no papel. Minhas palavras são o testemunho rasgado de que a poesia transcende o cotidiano, toca o mistério intocável e desenterra as verdades mudas da nossa humanidade comum. 🙏🏾
© Beatriz Esmer
