Selvagem

Nasceu selvagem, sim. Não por desamor ao mundo, mas por excesso de vida que não coube nos vincos do papel nem nas margens do relógio. Havia nela uma curiosidade antiga, quase dolorosa, como se os olhos guardassem o clarão de mil estrelas cansadas de escuro. O que fazer com alguém assim? Quem tem coragem de fechar em gaiola o que aprendeu a dançar com o vento e a conversar de igual para igual com a chuva?
— Eu brinco com o fogo da minha própria verdade — disse-me ela, e a voz não era som, era pulso, era uma convicção que rasgava o ar. — Vou queimar pelas coisas que amo.

Naquele segundo exato, vi-a em sua espantosa nudez de cometa. Não era a mulher submissa que a calçada esperava; era um risco de luz atravessando o céu, deixando para trás um rastro de claridade que feria os olhos de quem só sabia olhar para baixo. Uma força da natureza, indomável, sem freio, destinada a incendiar o mundo com o delírio dos seus sonhos.

Querer segurá-la seria o mesmo que matar a sede afogando a fonte. A mão que aperta desmancha o voo. Ela precisava do espaço imenso, do risco, de incendiar o coração dos desatentos que tivessem a sorte — ou o assombro — de cruzarem o seu caminho.

E foi por isso que a vi ir em sua rota livre, sem o peso de caber em laços que não lhe pertenciam. Apenas testemunhei, com um espanto grato e silencioso, a passagem daquela claridade — sabendo que a sua chama continuaria a incendiar o mundo e a abrir clareiras na escuridão por onde quer que ela escolhesse passar. 🌻

© Beatriz Esmer

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