Pode parecer que hoje é apenas mais um dia comum, numa vida comum, sobre uma estrela qualquer. Acordamos com a manhã e já nos debatemos na dúvida. Não tenho eu alguns problemas urgentes a resolver? Tenho quase certeza de que há algo errado, fora do lugar, um tanto torto. Não há? Não há alguém que eu precise urgentemente me tornar? Alguma pendência a desatar? Algo a mudar, transformar, manifestar, despertar, curar?
Como é fácil dar de barato que o amanhã virá, que teremos outra oportunidade de presenciar o nascer do sol, de caminhar sob a chuva, de escutar, pasmados, os pássaros a nos recordar nossas antigas saudades, de partilhar um instante de comunhão com quem está diante de nós. Mas há um canto em nós que sabe quão frágil é este chão, quão tênue, e que esta janela para a vida não ficará aberta por muito tempo.
Percebendo isso, renunciemos ao vício de adiar a vida. Ajudemos o outro no que for possível, corramos o risco de habitar este mundo por inteiro, sem esquecer o que realmente importa, sem pedir desculpas pela nossa singularidade, pela nossa sensibilidade e pelos dons de nossa fragilidade.
No fim desta existência — que há de chegar bem mais cedo do que gostaríamos —, é bem pouco provável que estejamos preocupados com a lista de tarefas cumpridas, com nossos eus aperfeiçoados, com a transmutação de nossa humanidade trêmula, com o fim de nossas manias de autoaperfeiçoamento, com a prudência excessiva ou com a “conclusão” de alguma jornada espiritual mitológica. Dentro do peito, restará apenas uma brasa acesa, uma única pergunta: quanto eu fui capaz de amar?
© Beatriz Esmer
