É curioso como o toque nos pesa. Basta que duas mãos se cruzem com um resquício de carinho, um abraço que demore um segundo a mais do que o estipulado pela frieza social, para que imediatamente se invente um sentido secreto, uma intenção carnal, um pecado disfarçado. Por que essa pressa em rotular a ternura? Por que não podemos simplesmente nos importar, cuidar por nada, por um transbordo inexplicável de existir?
Queria tanto que o amor não precisasse de álibi. Apenas aceitar, olhar para o outro e amá-lo porque dividimos a mesma respiração neste mundo torto. No fundo, acho que somos criaturas feitas de afeto puro, esculpidas nessa matéria mansa que não sabe odiar. Mas nos obrigaram a desaprender. Entulharam nossa essência com o lixo do ego, com o medo estúpido que um mundo de cabeça para baixo nos ensinou sobre o que é conectar-se.
É preciso desaprender o medo. Despir o afeto de toda essa couraça pesada. Paz e amor, sim — não como um slogan vazio, mas como um grito rasgado e silencioso de quem recusa a se corromper.
© Beatriz Esmer
