Isso é para você e para todos os outros fantasmas que habitam as frestas do mundo. Aqueles que se cobrem de virtudes tão delicadas, tão translúcidas, que se tornam invisíveis aos olhos dos vivos. Qualidades que nos desfazem na carne, mas nos mantêm, dolorosamente, inteiros na alma.
Os vivos buscam o que podem tatear, saborear, cheirar e ouvir. Precisam da grossura do mundo para acreditar que ele existe. Mas nós, os belos fantasmas, nos reconhecemos no silêncio, na névoa fina que desce de madrugada e na densidade do nevoeiro.
É verdade que dói não sentir o toque bruto dos vivos. Dói porque eles não vestem a mesma invisibilidade que nós; têm medo do que escapa aos olhos, do que não cabe na palma da mão. O que não se vê, apavora-os.
Foi por isso, talvez, que eu também me tornei um fantasma. Ando por aí à cúpula de outros iguais a mim, tateando a névoa densa, buscando nos sonhos, talvez em um mundo de deserto onde os rostos reais já não possam ser vistos, um vislumbre de verdade que a luz do dia não ousa tocar.
© Beatriz Esmer
