O Tecido Mudo do Abraço

Há qualquer coisa de lancinante e urgente num abraço. Não é apenas o encontro de dois corpos que se tange; é o instante exato em que a pele decifra o indizível. No centro de cada abraço, essa geometria secreta, habita um universo mudo, um santuário áspero e terno onde o coração, finalmente exausto de tanto lutar, descansa.

Você chega e me envolve. E, de repente, o mundo, com sua crueldade cotidiana e seus relógios implacáveis, suspende-se. Nesse curto-circuito do tempo, o corpo sussurra o que a boca tem medo de proferir. Há uma brisa suave que atravessa a gente e carrega a promessa nua e crua: “Estou aqui”. É uma garantia feroz e silenciosa de que, não importa a tempestade que uive lá fora, eu não estou sozinha no abismo.

É espantoso como as angústias se dissolvem. Desmancham-se como a névoa da manhã quando o sol a fere sem piedade, substituídas pelo murmúrio morno de um “não se preocupe”. Como se, pelo milagre de dois pares de braços que se fecham, o peso intolerável do mundo pudesse ser dividido, fatiado, tornado leve pelo simples ato tateante de segurar.

O tempo, esse monstro que nos consome, parece congelar, perplexo diante de nós. O abraço ecoa então a sabedoria ancestral das coisas que passam: “tudo passa”. É um empurrãozinho suave, quase doloroso, em direção à esperança. A certeza visceral de que até a noite mais densa, preta e sem estrelas há de ceder, mais cedo ou mais tarde, à insistência teimosa da aurora.

E, no núcleo dessa arquitetura invisível, pulsa o ápice do mistério: “eu te amo”.

Não é o amor piegas, domesticado. É uma sinfonia muda de afeição, um testemunho cru de um laço que as palavras, na sua infinita pobreza, jamás conseguirão capturar inteiramente. No abraço, nós nos rendemos. Escondidos na trama invisível dessa conexão, encontramos o refúgio, a esperança e o amor na sua forma mais crua, violenta e pura.

© Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.