É grave. É de uma gravidade que dói na raiz dos dentes, como se o mundo tivesse se quebrado por dentro antes mesmo de sabermos o que era inteiro.
Há uma infância que foi sumariamente mutilada. Não houve tempo. Mal aprenderam o gosto doce do açúcar, e já foram obrigados a mastigar o ferro frio da angústia. São crianças que crescem rodeadas por perda, por uma incerteza que tem o peso de uma lápide e uma angústia que não cabe nos pequenos ombros.
Eles não brincam de roda; ou melhor, a roda deles é o cerco invisível do medo.
Antes de saberem desenhar um pássaro no papel, já sabem desenhar a rota de fuga. Forçadas a aprender a linguagem da guerra — uma língua áspera, sem vogais, feita de estilhaços e silêncios súbitos —, essas crianças foram esvaziadas do direito sagrado de simplesmente existir. Roubaram-lhes os sonhos, como quem arranca a flor do vaso sem piedade. Roubaram-lhes o futuro, como se o amanhã fosse um luxo proibido para quem já nasceu condenado a sobreviver ao hoje.
E o que fazemos diante dessa inocência assassinada? Olhamos espantados para o abismo, enquanto eles, pequenos sobreviventes de um naufrágio que não causaram, pisam em cacos de vidro com pés descalços. No olhar dessas crianças há uma urgência antiga, um desamparo que transcende a idade. Elas já carregam rugas na alma, desenhadas a ferro e fogo por um mundo que falhou terrivelmente em protegê-las.
© Beatriz Esmer
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