Desculpe-me se, às vezes, minhas respostas parecem tolas, quase infantilescas na sua urgência de existir. É que eu cansei. Estou terrivelmente entediada com essa arquitetura de mentiras polidas que chamamos de mundo. O falso me pesa como um casaco de chumbo no verão.
Mas, se você quiser ver o meu lado sério — aquele que não tem medo do escuro —, se quiser testemunhar meus olhos brilhando com o assombro de quem ainda respira, não me pergunte sobre as coisas úteis. Não me pergunte sobre o lucro, o cálculo ou a eficácia dos dias.
Pergunte-me sobre o amor.
Pergunte-me sobre a bondade. Ah, a bondade… essa força desarmada e silenciosa que quase ninguém tem coragem de olhar de frente. Pergunte-me sobre a ternura, sobre a escancaração do coração, sobre a compaixão que chora pelos cantos diante da fragilidade do outro.
Essas palavras não são apenas palavras; são como um vento súbito que atravessa a secura de uma sala fechada. Imagine por um instante um lugar onde a autenticidade impera soberana. Um lugar onde os corações batem descompassados, no ritmo cru da conexão verdadeira. Nesse território raro, as respostas tolas evaporam, substituídas por trocas tão densas que chegam a doer. É o amor que mantém nossa alma acesa. É a bondade que sutura os rasgos invisíveis que a vida vai fazendo na gente. É a ternura que nos devolve, enfim, ao nosso estado mais legítimo: o de seres humanos inteiros, desprovidos de couraça.
Porque a vida verdadeira — aquela que pulsa por baixo da casca do cotidiano — só acontece quando temos a coragem escandalosa de falar a partir do abismo da nossa alma, revelando o que tememos e o que desejamos com uma nudez quase insuportável. É aí que o feitiço se cumpre. É nesse instante exato que a existência deixa de ser o trânsito enfadonho do comum e se converte em uma sinfonia áspera, deslumbrante e inteiramente nua. 🙏🏾❤️
© Beatriz Esmer
