Para os porões da memória, a história não pergunta se o crime compensa; ela o exibe na vitrine. Cinquenta e cinco milhões de corações decidiram que o roubo é uma paisagem aceitável, desde que venha acompanhado da bênção certa. Saber que Flávio participou do maior saque aos aposentados, que pisou no suor de quem já trabalhou a vida inteira, não pesa na balança. Saber que ele estende a mão a quem defende o sangue de uma criança também não assusta. Nada disso comove. Na aritmética da sanha, vale mais o ódio de estimação do que a ética do chão.
O Brasil amanhece, assim, com as engrenagens travadas. Mesmo que Lula vença e alcance o seu quarto mandato, já nasce algemado à tumba da própria impotência. O Congresso e o Senado vestiram a farda da direita, armados até os dentes pela força extrema do conservadorismo de grife. O país tornou-se ingovernável por decreto das urnas. De um lado, a promessa de um tempo que insiste em voltar; do outro, a muralha de pedra de um Legislativo pronto para paralisar o relógio da República.
No escritório do crime, há medalhas para milicianos e cofres arrombados de velhos indefesos. Mas esses detalhes somem, viram fumaça diante do altar do rancor. O ódio a Lula é um sol negro que cega e rege as marés. Não se sabe ao certo quem pagou o preço dessa venda em massa: se foi o rio de dinheiro das emendas parlamentares, a sanha dos pastores milionários ou o algoritmo destilado nas redes sociais. Os donos do rebanho sabem o que fazem.
Apenas se sente o vento frio soprando nas esquinas, empurrando a passos acelerados o país rumo ao seu destino mais sombrio: o evangelistão autoritário, a volta dos coronéis e a carta branca para Trump saquear nossas riquezas… 😔
© Beatriz Esmer
