A Medida do Vazio

Há palavras que não pertencem aos dicionários; habitam o silêncio que fica depois que o som se esvai. Saudade. É uma medida. Uma unidade de medida estranha, quase impossível, calculada não em centímetros ou horas, mas nos recônditos da alma que o tempo escavou.

Basta pronunciá-la — ou contê-la, emudecida na ponta da língua — e o peito se alarga para caber o peso do que escorreu por entre os dedos. É uma dor mansa, um eco de risadas que hoje moram apenas no porão da memória. O tempo, com sua marcha cega e implacável, passa abrindo esses vazios. E a gente os carrega como quem carrega um vaso precioso, feito de cacos e saudades.

O que é a saudade senão o sussurro do que já foi? Ela nos fere com delicadeza, lembrando-nos de que a beleza e a dor dormem juntas na mesma cama do passado. É a geometria exata da falta: mede-se a profundidade do coração pelo tamanho do espaço que a ausência deixou. E, estranhamente, a gente quase agradece. Porque sentir esse vazio é a prova cabal de que fomos capazes de transbordar. Não são apenas lacunas; são os altares onde um dia morou a alegria mais pura, a conexão mais profunda.

Carregar essa ausência é aceitar a vertigem de viver. É reconhecer que tudo passa, que a vida escorre entre as mãos como água fresca, e que amar é, no fundo, aprender a convivir com a imprecisa arquitetura da perda. A saudade é a poesia secreta que a alma escreve quando já não há mais palavras, equilibrando-se, frágil e forte, na corda bamba entre o que se foi e o que ainda insiste em doer dentro de nós. ❤

© Beatriz Esmer

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.