A Grandeza das Coisas Sem Fim

O tempo não é uma linha; é um espelho que se parte e, em cada caco, reflete a mesma fome de existir.

Olho para este momento e sinto um aperto que é, ao mesmo tempo, pertencimento e travessia. Esta eleição traz a finitude daquilo que sempre me pareceu eterno. Falo “meu presidente” com esse sentimento misterioso de posse — não porque ele me pertença, mas porque pertencemos, juntos, à mesma matéria esculpida pela esperança. Conheço Lula desde os anos oitenta, quando a minha juventude encontrou a militância no Partido dos Trabalhadores. Era um tempo duro, carregado de chumbo e de um silêncio sufocante no final da ditadura. Eu tinha sonhos grandes demais para o meu corpo pequeno, mas descobri que não os sonhava sozinha. Éramos uma multidão compartilhando a mesma vertigem: a crença imperiosa na vida.

Lembro-me da dor crua de ser quase nada. No segundo ano da faculdade, o desemprego me tirou o chão. A fome não é apenas a falta de alimento; é um desnudamento da alma. Lembro dos dias em que recolhia os restos na cantina, quando o orgulho precisava ceder espaço à sobrevivência, e daqueles quatro dias inteiros em que o nada foi tudo o que tive para comer. O corpo cobra o preço da escassez; a saúde fraquejou e meu cabelo caiu, como se a vida estivesse me desfolhando. Mas foi ali, no abismo, que a mão do outro se fez carne. Os amigos do partido não me deixaram desaparecer. Fizeram uma festa beneficente, juntaram os trocados que não tinham para cobrir minhas mensalidades e me levar ao médico. Nos cartazes pintados à mão, lia-se: “Vá em frente que a vitória é certa”. Aquela frase não era apenas papel; era um pacto de existência.

Anos depois, levei quarenta desenhos — quarenta pedaços de mim — até uma agência de publicidade. Esperar horas para ouvir de um diretor que a minha cor era o meu limite foi como um golpe seco na alma. Fiquei reduzida ao silêncio. No entanto, os mesmos amigos resgataram minha dignidade. Levaram meus desenhos para a sede do PT em Carapicuíba e ergueram uma exposição. Naquele espaço modesto, não fui rejeição: fui infinitude. Senti-me grande, gigante, invencível.

De lá para cá, o mundo girou em suas órbitas invisíveis. A política de educação e inclusão que o Lula costurou no tecido deste país não foi apenas estatística; foi reparação de destinos. A dor que me atravessou na juventude não alcançou a pele das minhas filhas. Hoje, uma caminha pelos corredores da Unifesp e a outra estuda na USP. Ver o futuro acontecer nos passos delas é a confirmação de que nenhuma daquelas vigílias foi em vão.

Sinto uma gratidão que ultrapassa as palavras, pois no mapa dos homens não há, em todo o planeta, um estadista que se compare à grandeza sensível do seu coração.

Obrigada, Presidente Lula. O tempo passará, mas a dignidade que restaurou continuará viva em mim.

© Beatriz Esmer

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