É preciso ter uma certa coragem quase cruel para soltar o que não nos cabe. Não por nobreza de alma, mas porque o peso disso já apodrece nas mãos. Que se vão— ou melhor, que se vão aqueles que não sabem nos amar, e que o façamos sem o rancor mesquinho dos que exigem fatura, mas com um desinteresse sagrado. Como quem deixa cair uma casca de fruta no chão, sem raiva, apenas porque já cumpriu seu tempo de espanto.
O amor que não nos quer é um enigma estéril. Ficar tateando o escuro à procura de um reflexo no espelho alheio é uma forma lenta de desfeita consigo mesma. Há uma dignidade áspera no silêncio de quem se retira a tempo. Não porque o outro seja pouco — talvez ele seja apenas o que é, um sopro breve —, mas porque a nossa alma não cabe mais nessa penúria de afeto.
Perdoar a ausência não é um ato de bondade angélica; é uma necessidade de sobrevivência do instinto. É olhar para o vazio deixado e constatar, com uma espantosa clareza, que a ferida já não dói como carne, mas lateja como revelação. A gente se inventa de novo nos cacos. E descobre, com um sobressalto de alegria funda, que a inteireza não precisa do aval de ninguém para pulsar.
Voltar para si mesma é um ato de impaciência contra a mentira. Que se calem os dias frios, as respostas mornas, os vazios que fingiam ser abraço. Deixo ir. E ao deixar, descubro que sou muito mais vasta do que o espaço que eles ocupavam.
© Beatriz Esmer
