O Espaço para a Alma Respirar

Guardamos, guardamos sem saber por que, num impulso automático que nos transcende e nos reduz. São gavetas e mais gavetas entulhadas de coisas inúteis, pequenos nadas que acumulamos sob o pretexto covarde do “vai que um dia preciso”. Mas não é das gavetas de madeira que falo. Falo de algo mais secreto, mais vertiginoso. Falo da mente.

É exatamente do mesmo modo, com a mesma negligência silenciosa, que preenchemos os vãos da nossa cabeça com um entulho pesado, uma poeira mental que só serve para uma coisa: fazer-nos esquecer. Esquecer do que é essencial. Esquecer da própria vida acontecendo agora, pura e crua, do outro lado da janela. Há um ditado que diz: “lixo entra, lixo sai”. E quão impiedosamente verdadeiro ele é na sua crudeza.

Olho para dentro e vejo os pensamentos que insistem em rastejar. É preciso uma faxina interna, uma violência mansa, mas definitiva.

Se um pensamento busca apenas o “eu”, se ele se fecha numa redoma de puro egoísmo em vez de se derramar em generosidade para o mundo, jogue-o fora. Não serve. Se um pensamento exala o cheiro acre da maldade em vez do perfume leve da bondade, livre-se dele imediatamente.

E, ah, o mais perigoso de todos: se o pensamento insiste em ver a si mesmo como uma vítima, essa autocompaixão que nos imobiliza na poltrona do sofrimento, em vez de se erguer como um instrumento vivo de criação… jogue-o fora. Jogue sem dó. Se um pensamento, no fundo de sua essência, não for feito de amor, ele simplesmente não tem o direito de ocupar espaço em você.

Acumular negatividade é uma forma sutil de morrer em vida. É estagnar o corpo, emudecer a mente e sufocar o espírito.

Ao limpar essas gavetas da alma, algo milagroso e assustador acontece: abre-se o vazio. Mas não um vazio de solidão; um vazio de espaço. Espaço para que a Alma finalmente respire, venha à tona e ganhe vida. É só quando nos esvaziamos do lixo que permitimos à Alma assumir o timão, guiando o curso da nossa existência em direção àquelas ocasiões fortuitas, aos acasos felizes e aos milagres cotidianos que só acontecem quando estamos verdadeiramente limpos. E, então, finalmente começamos a ser.

© Beatriz Esmer

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