A beleza não pede licença; ela simplesmente expõe a sua nudez diante do nosso espanto. Olho para a tela do mundo e percebo que as cores podem ser acrescentadas, sim, como quem passa um batom forte antes de enfrentar o espelho, ou como quem joga um manto de tintas sobre a crueza dos dias. Mas a cor é apenas o adereço da alma. A beleza é inata. A beleza verdadeira nasce antes. É anterior ao traço, anterior ao olho que vê. Ela já estava lá, secreta e silenciosa, na própria carne da existência.
Há algo de profundamente incômodo e, ao mesmo tempo, salvador nisso. Essa beleza que já nasce conosco não nos aplaude; ela nos interroga. Ela nos fala de mistério… Um mistério que não quer ser decifrado, pois decifrar seria matar o milagre. É o mistério de existir, de ser uma coisa viva que pulsa e que sangra em tons que nem os olhos conseguem ver. Fico parada diante do instante, sentindo o peso dessa revelação que não se explica.
E, no entanto, em meio ao peso desse enigma que quase me esmaga, há um sopro. Uma leveza que suspende o meu desassossego e nos convida a acreditar… Não uma crença das certezas intelectuais, que são frias, mas um crer desamparado. Crer que, por trás de toda a poeira e do caos, existe um sentido sagrado que nos acolhe na nossa solidão.
Fecho os olhos para ver melhor. A beleza inata nos convida a ter a coragem de ser. E eu aceito, com o coração batendo forte, esse mistério. ❤️
© Beatriz Esmer
