Olho para o muro e o muro me devolve a mim mesma, impiedoso como um espelho que não cansa de refletir o avesso. “Sou vilão de muitas histórias mal contadas.” As letras escorrem em vermelho e preto, uma caligrafia crua, quase obscena de tão sincera, rasgando o reboco desgastado pelo tempo.
Ali, na aspereza do tijolo exposto, há uma denúncia. Não do outro, mas da narrativa alheia que nos engole.
Quantas vezes caí no erro de existir apenas através dos olhos de quem me lia errado? É um cansaço pesado, esse de carregar a culpa por um enredo que eu sequer assinei. O outro nos fixa em um papel — o vilão, o monstro, o incompreensível — para salvar a si mesmo de sua própria mediocridade. Para manter intacta a sua frágil fábula de herói.
É tão mais confortável para o mundo mal contar uma história do que mergulhar no abismo da verdade de alguém. A verdade é um peso incômodo; o estereótipo, um alívio.
Sinto uma pontada de vertigem. Há uma liberdade quase violenta em ser o vilão da história de alguém. Quando desisto de me explicar, quando aceito o escorrido vermelho daquela tinta como minha própria capa, algo em mim se liberta. Se sou o vilão, já não devo a doçura que esperavam de mim. Já não preciso da aprovação hipócrita da plateia.
O muro está em silêncio, mas ele grita. E eu, parada diante dele no meio da tarde que desbota, aceito o meu papel. Que contem mal as histórias. Que me pintem com as cores do erro. No fundo, a única coisa que realmente importa é o que sobra de mim quando as luzes do teatro do outro se apagam. E o que sobra é uma existência inteira, pulsante, irremediável. Salva de ser apenas o que os outros conseguem compreender.
© Beatriz Esmer
