Junho, 2013

A rotina me devora com seus dentes implacáveis. Mas o verdadeiro espanto não é a dor; é a ausência dela. Eu me anestesio, precisamente porque não dói. E essa falta de sofrimento legítimo é o que me horroriza, é o que me esvazia.

A cada semana, tateio no escuro por pequenas distrações — uma nova série, outro livro, um poema mastigado, um esboço inacabado, um velho amigo que me espelha. Nunca o bar, nunca a festa. O barulho dos outros me cansa antes mesmo de existir. Fico sempre à espera: as mesmas taxas, as próximas férias, uma dívida que me ancora à matéria, uma conta a pagar que justifica a minha existência mecânica.

Apago-me. Desligo os sentidos fumando demais, comendo de menos, dormindo quase nada. Aprendi a viver com menos de mim mesma e, numa dignidade covarde, nunca me queixo das coisas que me enfrentam. Não faço planos. Fazer planos seria admitir o futuro, e eu prefiro permanecer dormente, no entre-lugar.

Um antiácido para anestesiar o que queima por dentro, o café puro para alimentar minhas ansiedades estimadas. Cada dia me dilacera com o calor morno a que me apego. É um massacre íntimo, silencioso.

Culpo-me sem tréguas, colecionando ansiedades miúdas e irritações mesquinhas como quem junta pedrinhas inúteis no bolso. Mas há uma grande mentira nisso: eu nunca assumo a responsabilidade por não saber o que fazer. Por não conseguir descartar o que já morreu em mim, por não me usar para algo que seja maior, mais largo, mais livre.

Enquanto isso, avanço. Caminho sem planos de voo, sem rotas de fuga, sem saídas de emergência. Estou presa no meu próprio corpo.

Colido de frente com os domingos — esse dia que escorre pesado —, com o tédio que é o avesso do milagre, com as ruas sem saída do meu próprio pensamento. Os excessos todos pertencem a mim, são a minha carne. E os precipícios… ah, os precipícios me chamam pelo meu apelido mais íntimo. Eles me conhecem.

Busco um alívio que sei ser falso na poesia, no jazz, no vinho morno. Entregando-me às mentiras necessárias, aos sonhos inventados, ao flerte que não se consolida, ao egoísmo que me protege, e a um amor… um amor que nunca é o próprio, nunca é o que deveria ser.

Sacio-me de venenos e de vazios, apenas para ser arremessada outra vez em direção aos dias que me esmagam. E vou. Caminho em direção ao massacre diário com uma esperança terrível e mansa. A esperança pesada de um prisioneiro que, no escuro da cela, ainda aguarda a absolvição.

© Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.