Olho para eles de longe, mas de uma distância que me habita. Eu observo os homens em silêncio. Há uma crueza quase animal na forma como se instalam no mundo, uma certeza que me espanta e, no fundo, me cansa.
Eles não pousam as coisas; eles as abandonam. Deixam os pratos sobre as mesas da sala de jantar como quem deixa um rastro de conquista inconsciente, restos de uma fome que nunca pede desculpas. Quando saem, batem as portas. Não por raiva, o que seria compreensível, mas porque ignoram o peso do próprio impacto. O estrondo do batente ecoando no corredor é apenas o anúncio de que eles passaram. E passar, para eles, é sempre um ato de ocupação.
Na sala, o sofá deixa de ser um móvel e passa a ser um território. Eles ocupam o sofá inteiro, com as pernas abertas, esparramadas, braços largados como se o espaço ao redor fosse uma extensão natural de seus próprios corpos. Não há timidez no existir deles. Há uma folga que me faz encolher na minha própria cadeira, sentindo o peso de séculos de corpos femininos que aprenderam a ocupar o mínimo espaço possível para não incomodar.
Eles não filtram a fala. Falam de dentro de uma redoma de segurança absoluta. São confiantes demais, altos demais.
A voz de um homem no cômodo vizinho nunca é apenas um som; é uma invasão. Há sempre uma urgência áspera, um tom que roça o conflito. Vozes sempre violentas, tudo uma guerra. Para eles, a existência parece exigir esse estado de alerta, essa necessidade de vencer uma batalha que ninguém declarou.
Eu os olho e sinto uma solidão profunda. Não a solidão de estar só, mas a solidão de testemunhar uma engrenagem que funciona à base de ruído e espaço, enquanto eu prefiro o avesso: o silêncio que sobrou debaixo da mesa, o arcaico mistério de apenas ser, sem precisar gritar para o mundo que existo.
© Beatriz Esmer
