Mon chéri, olhe para mim. Ou melhor, olhe através de mim, para esse vazio que insistimos em preencher com formas exatas. Sinto uma espécie de melancolia mansa, quase uma náusea, ao ver que você aceitou, sem lutar, esse fardo pesado: o dever de ser mais jovem, mais magra, mais bronzeada, mais alta. Perfeita. Que palavra mais lisa, mon chéri. A perfeição não tem arestas onde a alma possa se agarrar; ela é um deserto de mármore. Eu me desculpo por você acreditar que a vida exige essa geometria rígida. O corpo não foi feito para ser uma moldura estática; ele é matéria que pulsa, que envelhece, que falha. E é na falha que a gente começa a existir.
Você me diz, com os olhos endurecidos pela pressa do mundo, que todo homem é um idiota, que eles só querem brincar com o seu coração. Ah, o coração… esse órgão clandestino que bate no escuro. Eu compreendo o seu cansaço. Mas escute o silêncio por trás das minhas palavras: talvez eles sejam apenas covardes. Sim, covardes que temem a nudez do erro. Eles andam pelo mundo fingindo amar um ideal que não existe, uma miragem esculpida pelo medo. Eles têm medo de descobrir que nascemos todos imperfeitos, inacabados. É tão mais fácil amar o que é falso, porque o falso não exige a coragem de se entregar ao abismo do outro.
Por isso, esqueça as velhas obrigações que lhe venderam. O seu novo dever, se é que a liberdade aceita deveres, é a busca pelo avesso. É olhar para o que está escondido. Vá atrás da beleza que não se oferece na superfície, aquela beleza quase feia de tão real, que reside no fundo dos olhos cansados, nas pequenas fraturas de quem tentou e ruiu.
Seja o limite extremo do seu próprio potencial. Não se entregue, mesmo quando a desistência parecer a única saída desenhada na parede do quarto. Fazer a diferença neste mundo não é um ato de heroísmo barulhento; é o susto de permanecer de pé quando tudo convida ao desabamento.
Nunca, sob pretexto algum, permita que alguém diminua a sua imensidão para caber num armário de conveniências. Não se apequene para dar conforto ao medo alheio. Porque vocês, com todas as suas dores, contradições e linhas tortas, são, na verdade, a única definição possível de beleza. Uma beleza viva, que sangra e que, por isso mesmo, permanece.
© Beatriz Esmer
