O salão estava imerso naquela penumbra clássica, um tom de chá esquecido na xícara. Olhei para as minhas próprias mãos, percebendo nelas os mesmos nós e os mesmos caminhos de linhas que um dia estudei na palma da mão dela. A memória, esse bicho caprichoso que espreita atrás das cortinas, trouxe o eco das idades. Uma cronologia invisível, desfiada como um colar de pérolas antigas.
Aos 5 anos, você diz: “Mamãe, eu te amo…”
A infância tem cheiro de Sol e de colônia barata. A voz é um sopro puro, sem arestas.
Aos 10 anos, você diz: “Mamãe, eu te amo muito!”
O mundo ganha corpo, o amor ganha peso, intensidade. Uma certeza absoluta entre os joelhos ralados e os cadernos de desenho.
Aos 13 anos, você diz: “Mamãe, eu posso?”
A primeira fresta de luz na porta do quarto. A busca pela chave que abre o mundo lá fora, enquanto o mundo de dentro começa a parecer estreito.
Aos 15 anos, você diz: “Mamãe, não me amola.”
O tom muda. Há uma névoa de arrogância típica da juventude, aquele cansaço fingido, os olhos que rolam para o teto. O instante exato em que o casulo começa a romper, incomodado com a própria pele.
Aos 20 anos, você diz: “Eu quero sumir desta casa!”
A urgência da partida. Mas malas prontas no corredor, o peito estufado de vento e a ilusão de que a liberdade é uma estrada sem volta.
Aos 35 anos, você diz: “Eu quero voltar para a casa da mamãe.”
O mundo lá fora foi duro demais. As tempestades da vida adulta desbotaram as certezas. E a alma, descalça e cansada, anseia pelo tapete macio da sala de infância, pelo eco dos passos conhecidos na cozinha.
Aos 50 anos, você diz: “Não vá embora, mamãe.”
O susto. O relógio de parede parece bater mais alto. O cabelo dela, agora de algodão; os passos, agora lentos. A inversão implacável dos papéis sussurra no escuro do corredor.
Aos 70 anos, você diz: “Eu daria qualquer coisa por cinco minutos com a minha mãe…”
O silêncio definitivo. A casa vazia. O cheiro de guardado nos armários. Uma ausência que pesa mais que qualquer presença.
Olho para o papel em branco na minha frente e me pergunto, com aquela ponta de ironia melancólica que nos salva do abismo: Então me diga, como se conjuga o verbo “mãe”? O quê? Não é um verbo?! Você tem mesmo certeza disso?
Os gramáticos que me perdoem, mas a rigidez dos dicionários não alcança a elasticidade da vida. Se fosse um verbo, seria aquele que sustenta todos os outros tempos, todos os modos, todas as vozes. Seria o infinitivo do próprio verbo existir.
Porque ser mãe… ah, ser mãe é conjugar um turbilhão. É o movimento incessante de amar, fazer, doar, escutar, consolar, alegrar-se, chorar, abraçar, acariciar, sentir, curar, apoiar, proteger, criar, ensinar, acompanhar, lembrar, estudar, ler, limpar, cozinhar, alimentar, vigiar, gritar, sussurrar, cantar, sorrir, correr, pular, educar, compreender, perdoar, suportar, angustiar-se, erguer, sofrer, calar, falar, admirar, zelar…
É o cansaço na madrugada, o sussurro no escuro para espantar os fantasmas do armário, o pano de prato no ombro, o olhar de soslaio que adivinha a febre antes mesmo que ela queime na pele. É o sofrer em silêncio para não quebrar o encanto do outro. É o orgulho secreto guardado numa caixinha de memórias.
No fim, as luzes do salão se apagam um pouco mais. O feixe de sol que entrava pela veneziana se recolhe. E a conclusão nos abraça, suave e definitiva, como um casaco de lã num final de tarde de outono:
Você tem toda razão, “mãe” não é apenas um verbo, mas sim todos os verbos de uma Vida.
© Beatriz Esmer
