Olho para as árvores secas no inverno e, de repente, não há mais distância entre o que sou e o que vejo. Sou eu ali, exposta em galhos que parecem ferir o céu cinzento com sua nudez. Quem passa com pressa, com o casaco fechado até o pescoço, enxerga apenas o vazio. Dizem: “está morta”. Como o mundo é rápido em decretar a morte do que apenas silencia!
Mas a verdade, essa coisa que me escapa sempre que tento nomear, mas que sinto latejar nas têmporas, não se entrega aos olhos. O visível é quase nada. Por baixo da terra fria, onde ninguém vai ver, minhas raízes continuam a se espalhar, famintas, tateando o escuro. Elas se entrelaçam com tudo o que me construiu, num pacto secreto com o chão.
O vento sopra. Às vezes, um vento desajeitado e cruel que leva embora as últimas folhas, as últimas memórias, as certezas que eu achava que eram minhas. Mas há um limite para o vento. Ele não alcança o mistério do que me prende ao solo. Estou ancorada. Ancorada em mãos que já me tocaram e sustentaram, em afetos que me moldaram até eu virar essa moldura de osso e carne, na fé que não é uma palavra dita, mas uma pulsação muda, quase incômoda de tão viva, bem no meio do meu peito.
Os outros olham e veem a fragilidade de um galho nu contra o inverno. Deixem que vejam. Eu, de dentro da minha própria casca, sinto a seiva. Ela corre lenta, espessa, quase parando, mas corre. Há uma urgência mansa preparando o renascimento.
A vida é de uma insistência que me assusta. Ela nunca desaparece, compreende? Ela apenas finge que se ausenta. Descansa, recolhe-se para o fundo de si mesma, espera com a paciência terrível das coisas que sabem que vão voltar. Ela se fortalece naquilo que a sustenta no escuro.
A primavera não é um milagre que vem de fora. É a seiva que cansou de esperar.
© Beatriz Esmer
