O silêncio da sala ferve de entrelinhas. Você mexe no café, desvia os olhos, e de repente o espaço entre nós se torna um abismo de mal-entendidos cotidianos. Quero te dizer algo que vai além da gramática dos dias úteis.
Olha para mim. Por favor, não me trate como se eu fosse comum, nem me repreenda porque não sou. É exaustivo tentar caber nas gavetas que você comprou para mim. Há uma urgência em existir que você, na sua pressa de classificar o mundo, parece não ver.
Vire o rosto na minha direção. Olhe para mim quando eu lhe disser que te amo, escute atentamente quando eu tiver a coragem de pedir que compartilhe o seu amor por mim. Porque o amor não é uma palavra que se joga no tapete; é um parto de si mesmo. Pois é aí que minha alma está tentando se conectar. É quando eu mais preciso de você. Não há nada de romântico ou decorativo nisso; é uma necessidade quase física de transcendência. Tenho fome de ser vista.
Você recua um milímetro, e eu sinto o peso do seu julgamento. Tente não me desprezar por expor minhas vulnerabilidades, olhe nos meus olhos. O mundo nos ensina a vestir armaduras de ferro fundido, mas eu prefiro a nudez do avesso. Lembre-se disso: sou aberta, não fraca. A abertura é uma força assustadora que os covardes confundem com fragilidade.
Quando estendo a mão na sua direção, não estou pedindo esmola emocional, estou oferecendo um portal. Quando eu estender a mão para você, não é o seu ombro frio que me ensinará uma lição, mas a sua mão que me lembrará da sua grandeza. A rejeição não educa ninguém, só petrifica. E eu me recuso a virar estátua.
Se eu corro, não é para te caçar, é para me salvar da solidão que é estar ao seu lado e não te alcançar. Quando eu correr para você, não fuja, abra os braços e deixe-me correr para dentro deles, é aí que ambos vencemos. Existe uma vitória secreta na entrega mútua, uma trégua na hostilidade de estarmos vivos.
Vejamos o relógio: o tempo pinga, pesado. Quando eu compartilhar o presente do tempo com você, desembrulhe-o com gratidão, assim como faço com o presente que é você. Cada minuto é um milagre que deságua no nada; não o desperdice com o tédio dos ressentidos.
Sei que você tenta me fixar em uma moldura rígida, um retrato estático para sua conveniência. Mas eu escapo. Saiba que o que eu sou não é definido por uma conclusão momentânea. Eu transbordo os seus conceitos.
Eu sou um processo em carne viva. Sou humana, sou uma alma, sou falha e sou amor…
E o mais assustador, meu querido? É que eu sou exatamente como você: humana!
© Beatriz Esmer
