O Verbo e a Matéria

Dei por mim pensando na gramática das coisas vivas. Como somos rápidos em aprisionar o fluxo em substantivos, em cercar o mistério com arame farpado e chamá-lo de meu. Meu homem, minha mulher, minha vida. O pronome possessivo é uma tentativa burguesa e desesperada de conter o desabamento. É o medo do escuro, o medo de que o outro, ao desviar os olhos por um segundo que seja, deixe de existir para nós. Ou pior: que nós deixemos de existir para ele.

Mas o amor… ah, o amor não se deixa mobiliar. Ele tem a consistência perigosa da geleia de mocotó, o gume cego de uma faca de cozinha que corta sem que se perceba. Ele é verbo. E o verbo é ação pura, bicho solto no mato, um movimento que só acontece enquanto se desfaz. Amar é um estado de insolvência. É um gastar-se contínuo, sem a garantia do troco.

Quando digo “eu amo”, não estou comprando um terreno; estou me atirando de um penhasco cuja queda não tem fim.

E por que essa necessidade de “descolonizar”? Talvez porque tenhamos transformado o peito em um cartório. Invadimos o outro, fincamos bandeiras, estabelecemos impostos emocionais e leis de exclusividade, como se o corpo alheio fosse uma colônia a ser explorada até a exaustão. Queremos comer o coração do outro — exatamente como antropófago —, digeri-lo para que ele vire parte da nossa própria carne. É uma fome antiga, uma fome feia de posse.

No entanto, a liberdade do verbo assusta. Se não é meu, se é apenas um ato de ser, então eu não controlo. E não controlar é a iminência da loucura. É aceitar que o outro é um milagre estrangeiro, um território intocado que nunca me pertencerá, mesmo quando deita ao meu lado na cama e respira o mesmo ar quente da madrugada.

A vida real é feita de pedra, matéria áspera e doída. Amar sem possuir é um exercício de ascese quase insuportável para a nossa pequenez. É caminhar no vazio, sem corrimão. É saber que o amor só é vivo enquanto for verbo, enquanto for vento. Se virar pronome, vira estátua. E estátuas, no fundo, são apenas pedras frias que esqueceram como respirar.

© Beatriz Esmer

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