Olho para o círculo a lápis no caderno amarelado — ciência e poesia, dizia a margem — e dentro dele, uma jaula para o infinito: o farol do seu universo.
Faz muito tempo. O professor de filosofia gritava, gesticulava, arrancava os próprios cabelos em um desespero quase cômico, uma caricatura viva da paixão acadêmica. Ele uivava para nós, jovens sentados em nossas certezas frias, que o amor era isso. Uma lente que deforma e salva. “Nada significa tanto sem essa pessoa”, ele dizia, com a saliva de quem descobriu o segredo do mundo e se queima com ele.
Um dos rapazes da sala riu. Uma risada curta, defensiva, dessas que usamos para nos proteger do que é grande demais. “Então o senhor está dizendo que não dá nem para curtir umas férias sem a pessoa? Se você estiver realmente apaixonado?”
“Claro que não”, o professor respondeu. E houve um silêncio que não era da sala, era o meu próprio silêncio interior se abrindo. “Não completamente. Você reconhece a beleza, mas a beleza significa menos se o outro não a testemunha com você. A beleza diminui. Você vê o sublime e o primeiro pensamento — que é quase uma dor — é que o outro deveria estar ali. Não é tão bom sem ele. Eles iluminam. Eles fazem com que tudo seja mais.”
Eu nunca esqueci isso.
E hoje, anos depois, me pergunto: o que é esse “mais” que o outro inaugura em nós?
Olhar para o mar sozinha é ver apenas a água e a espuma, uma constatação física e fria do mundo. Mas amar é perder a imunidade contra a beleza. É andar por uma rua qualquer, ver a luz do sol bater obliquamente em um muro velho e sentir um aperto no peito, uma urgência quase violenta de dizer: olha. Se o outro não olha comigo, a luz continua lá, mas o mundo empobrece. Fica faltando a tradução.
O amor, descobri naquela tarde de gritaria e giz, não é um sentimento pacífico; é uma mutilação de nossa autossuficiência. Passamos a precisar de uma testemunha para que o sublime não nos esmague. Sem o farol, a viagem continua, os dias passam, as férias acontecem — mas tudo se torna um ensaio geral de uma peça que nunca estreia.
Escrevi aquelas palavras a lápis porque o grafite é temporário, mas o que ele riscou em mim permaneceu grafado na carne. Viver sem esse farol é possível, sim. É até mais seguro. Mas, oh, como o universo fica escuro quando a beleza é apenas o que ela é, e nada mais.
© Beatriz Esmer
