Tenho medo. Não do erro, compreenda, porque o erro é apenas o amor tremendo de susto neste mundo espantosamente louco. Tenho medo é da vastidão que se abre quando penso em você. Se o medo porventura rezar por pragas — porque a alma assustada às vezes range os dentes —, eu dobrarei os meus joelhos para inventar outra prece: que o amor nos salve de nós mesmos e que os nossos beijos sempre saibam o caminho de volta para casa.
Costure-me em ti.
Não uma costura higiênica, mas um alinhavo na carne viva. Prenda o meu “eu” no seu “você” até que não saibamos mais onde termina a borda de um e começa o abismo do outro. Uma fusão que nos enlace num embrulho bonito, um presente misterioso do qual esquecemos o remetente. Peço-lhe: faça o resumo da sua vida para mim. Tenho pressa. Minha saudade é uma equação incompleta, uma conta que não fecha, uma fome que morde o vazio.
Caminhe com doçura pela ponte que inventamos. Uma ponte feita de palavras trocadas, confissões veladas pelo pudor de existir, sussurros que parecem silêncios e esses pequenos acasos — os milagres cotidianos — que enfeitam o caminho em direção aos sonhos que guardamos no fundo das gavetas da alma.
Deixe que a poesia a colha no meu céu. E se a tristeza se aproximar de mansinho, como uma gata cinzenta, nós vestiremos o sol com roupas novas.
Sinta o cheiro das minhas roupas para reconhecer, num susto alegre, que elas já são suas. Desenhe um sorriso nos lábios, por favor, nem que seja um sorriso forçado no início, só para aliviar esse coração pesado que insiste em carregar o peso do mundo. Deixe-o descansar bem aqui, colado ao meu. Porque nos seus braços, veja você, eu sou o próprio Amor. E ali, naquele abraço que encerra o tempo, eu finalmente não preciso mais dormir para sonhar. Acordar virou o milagre.
Vá, caminhe e professe o seu feitiço, a sua doçura pura. Junte os fragmentos da sua alma com os fios perfumados desses dias que nos foram oferecidos de graça pelo destino. Amarre-os com a sua fé, com a sua esperança feroz e com a sua vontade — esses pedaços luminosos que espelham os seus próprios passos no escuro.
E depois disso? Depois, espere. O ato de esperar também é uma ação sagrada.
O bordado vai tomar forma. Não sabemos quando, mas ele surge nas bênçãos sussurradas, nos carretéis da vida, nas cores que explodem sem pedir licença. E, por favor, continue sendo exatamente quem você é. Mesmo que você envelheça, mesmo que se perca no labirinto dos dias, mesmo que mude tanto a ponto de não se reconhecer no espelho. Você vai florescer. Você vai triunfar, renascer, viver — ah, a urgência de viver! — mesmo que sempre falte algo. Pois a vida é maravilhosa justamente porque é incompleta.
Costure, então, os seus passos nos meus. Você é sempre bem-vindo na minha nudez. Você é o girassol que busca a luz, a semente que racha a terra no escuro, o fruto que se entrega ao paladar. Nuvem cinzenta de tempestade ou sol nascente que fere os olhos — pouco importa a roupa que o dia vista.
Porque eu amo você. E a eternidade é apenas o tempo que passarei ao teu lado.
©️ Beatriz Esmer
