A cozinha estava em silêncio, aquele silêncio pesado e vertical que só as mães sabem preencher sem dizer uma palavra. Eu a olhava de relance, as mãos dela ocupadas com alguma miudeza cotidiana, um pano de prato, uma xícara vazia. E, de repente, veio-me um sobressalto: quem é essa mulher quando não está sendo minha mãe?
Olhar para uma mãe é, quase sempre, olhar para um espelho que se recusa a refletir a si mesmo para refletir apenas o outro. Mas há frestas. Há dias em que a rigidez do papel desaba e o que sobra é a matéria-prima da alma.
São esses pequenos pedaços de nós que não podemos esconder que nos tornam belas. São esses fragmentos dela, os que ela tenta ocultar sob o manto da fortaleza, que a tornam secretamente bonita. A curva cansada dos ombros quando o dia termina, o sobrolho franzido diante de um pensamento que nunca saberemos qual foi, a risada que escapa sem pedir licença — pedaços de um “eu” que a maternidade não conseguiu domesticar por completo.
Mãe é o avesso do escuro. Os pequenos pedaços de luz que brilham através das nossas partes mais sombrias, são esses que definem você. Quando a casa escurece, quando o mundo lá fora desaba em incertezas, são esses fiapos de luz que emanam dela que nos guiam. Não uma luz ofuscante, de holofote, mas aquela claridade tímida que insiste em passar pelas frestas de uma porta quase fechada. É essa insistência em iluminar, mesmo quando tudo ao redor convida à sombra, o que verdadeiramente a define.
Olho para ela e sinto uma espécie de luto por tudo o que ela poderia ter sido se a vida não a tivesse moldado com tanta urgência. Vejo nela um vislumbre de quem poderíamos ser se o mundo não tivesse nos parado. Havia uma promessa no seu caminhar, um lampejo de asas que o tempo domesticou. Foi o mundo que nos parou… O mundo, com suas exigências brutas, com sua mania de exigir que as mães desistam de si mesmas para que os outros existam. O mundo a parou, sim. Fez dela abrigo, e todo abrigo desiste um pouco de sua própria expansão para virar parede e teto.
Mas ali, na beira da mesa, vendo o sol da tarde tocar suas mãos calejadas de afeto, percebo que o mundo falhou em sua tentativa de apagá-la. O mundo a parou, mas não conseguiu conter a sua essência. Ela continua brilhando, em pedacinhos, misteriosa e sagrada. Minha mãe. Uma mulher que, de tanto conter o mundo, acabou por criar o seu próprio universo dentro de nós.
© Beatriz Esmer
