O Caleidoscópio Interno

Traçar os contornos dos pensamentos alheios não é apenas ver; é uma invasão mansa, um desastre delicado. Cada sinapse sua era uma ponte entre mundos suspensa sobre o nada. E eu, que tantas vezes me perco na própria carne, usei os teus olhos como bússola. Olhar através de ti foi como vislumbrar um caleidoscópio de emoções cruas — matizes de alegria, dor e aquela longuíssima saudade que não se sabe de onde vem, mas que pesa.

Havia uma fome em mim. Alimentei-me dos sabores das tuas memórias, saboreando o agridoce que te define e que, de algum modo, também me deforma e refaz. O riso comungado sob a luz trêmula das velas, as lágrimas que caem para dentro na solidão absoluta, os segredos sussurrados e tecidos na própria matéria do teu ser… tudo isso coagulou em mim. Tornou-se sangue do meu sangue.

Sentir o outro é uma audácia perigosa.

E quando voei pelo teu céu, de asas abertas, não era um voo de pássaro; era o próprio vento batendo no meu rosto, uma vertigem. Aquela imensidão azul estendia-se sem fim, espelhando o vazio vertiginoso dos teus sonhos. Dancei entre as constelações, cujas histórias antigas estão gravadas em poeira de estrelas, e perguntei-me, com uma espécie de angústia mística, se tu também terias feito pedidos a essas luzes moribundas e distantes.

Mas o que me arrebatou foi o teu silêncio. Que coisa densa é o silêncio de alguém. Ele falava volumes — uma sinfonia de palavras intocadas, uma tela branca implorando pelas pinceladas cegas do significado. Escutei-te. Não com os ouvidos, que são limitados, mas com a ressonância quase dolorosa da empatia. O teu silêncio era uma linguagem autônoma, uma ponte precária que tentava ligar dois corações por cima do abismo intransponível da solidão humana.

Ao sonhar com as tuas estrelas, busquei a comunhão impossível com os mistérios cósmicos. Talvez sejamos todos isto: poeira de estrelas, restos de explosões antigas e violentas, ansiando desesperadamente por compreender o nosso lugar nessa dança que não cessa. E ao conhecer-te — mesmo que apenas um vislumbre, mesmo que de leve — descobri um universo inteiro que se abria do lado de dentro. Uma constelação de experiências partilhadas. Uma constelação chamada, com toda a sua beleza e espanto, de “nós”.

© Beatriz Esmer

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