Antes que as Flores se Curvem

Quero massagear, como um remédio, palavras macias como loção nos seus ombros e na nuca…

Quero espalhar palavras mansas na sua pele, não como quem fala, mas como quem cura. Palavras sem o gume da lógica, sem a pressa do entendimento. Um unguento de sílabas suaves que desliza pelos seus ombros tensos, descendo pela nuca — ali onde a fragilidade humana se esconde e se contrai. Massagear a sua carne com o sopro do que é leve, até que o nó que te aperta o peito comece, finalmente, a ceder.

No fundo, o que buscamos nessa fricção da alma com a matéria? Talvez a perda da identidade dura para o nascimento de algo mais profundo.

…deixando meu nome florescer na sua pele…

Quero que meu nome perca o sentido de posse e se transforme em semente. Que ele brote, devagar, nos poros da sua pele. Não para que você me pertença, mas para que nos misturemos nessa zona fronteiriça onde eu já não sei onde termino e você começa. É um desabrochar silencioso, um milagre miúdo acontecendo no avesso do toque.
E então, suspiramos. O peso se desfaz em perfume.

…até você se tornar tão doce que as flores vão curvar suas cabeças para sentir o seu perfume…

Você se torna, enfim, de uma doçura incurável. Uma doçura que não é mel, mas estado de graça. Uma substância tão pura e orgânica que a própria natureza, em sua sabedoria secreta, reconhece. As flores — essas criaturas que sabem tudo sobre a beleza e a imobilidade — curvarão suas cabeças pesadas, num sussurro de pétalas, apenas para aspirar o mistério que agora exala de você.

Fazer-se cheiro. Fazer-se flor. No fim, o amor é esse instante em que o corpo esquece que é terra e se lembra de que é vento. 🌻

Este texto daria uma música… 🤭

© Beatriz Esmer

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