Na Casa da Minha Infância

Na casa de minha infância, jamais se acenderam luzes artificiais de Natal, tampouco surgiram presentes. Lembro-me disso agora, não com o peso do que faltou, mas com a leveza do que transbordou. Reflito sobre isso enquanto contemplo o céu, onde o vermelho e o laranja desvaneceram com o crepúsculo, encobrindo a luminosidade do sol. Há um instante preciso em que o dia morre e a noite ainda não nasceu; é nesse vazio que a infância nos habita.

Meus olhos, repletos de contemplação, acompanham a revoada de pássaros que pinta o céu de negro, como se protegessem a casa de outrora. Uma arquitetura de asas que resguarda o que fomos. Olhar para o céu é, afinal, uma forma de silêncio.

Sem intenção, mas sem ressentimento, mantenho viva a tradição antiga. Há uma pureza nessa mudez do mundo. Prefiro as luzes celestiais, pois assim meus olhos foram educados. Fomos alfabetizados pela escassez que, paradoxalmente, nos fez ricos de infinito. Não sinto falta do brilho metálico das bolinhas de plástico nem do frenesi comercial do Natal. Agradeço por isso. Agradeço quase com sobressalto. Se as coisas tivessem sido diferentes, talvez meus olhos não tivessem aprendido a buscar essas belezas singulares que só se revelam na inversão da luz — essa mesma luz que obscurece a verdade do que somos no escuro. Porque é no escuro que a alma finalmente se enxerga, despida de artifícios.

Não sei quanto tempo ainda estarei aqui, nesta varanda do mundo, mas sei que perderei esse privilégio. O progresso tem uma pressa que me assusta. As luzes das casas, janelas e árvores piscarão incessantemente, uma engrenagem ruidosa revelando as verdades deste mundo que avança como uma mariposa em direção à luz. Uma luz que atrai, mas que também cega.

Que pisquem as cidades, então. Pois eu, de olhos fechados, contemplarei o pôr do sol. É dentro de mim que o crepúsculo verdadeiramente acontece.

Escrito às vésperas de um Natal com o coração cheio de saudade.

— Beatriz Esmer

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