Olho para o lado e percebo que existir é um ato político, por mais que canse. Às vezes, cansa tanto. Quando você me diz, com uma leveza que quase me espanta: “Eu não me interesso por política”, ou fecha os olhos num suspiro dizendo que “políticos são todos iguais”, sinto um frio no estômago. Você não está apenas emitindo uma opinião; você está abdicando de si mesmo. Está entregando o vislumbre de humanidade que lhe cabe, abrindo mão do voto — que é, no fundo, o sopro mais poderoso que possuímos para moldar o caos do mundo.
Olhe ao redor. Olhe de verdade, sem anestesia. A Faixa de Gaza devastada, um deserto de escombros onde mulheres e crianças sucumbem à fome, num ciclo cego de ataques e represálias que parecem não ter fim. Dói olhar. Mas ignorar não nos protege. A sua ignorância, esse seu silêncio confortável, pode muito bem contribuir para a ruína do mundo. No entanto, há um reverso: a sua inteligência, se acordada, tem a força exata para salvá-lo.
Há uma urgência que esmaga os dias. Veja o que o bolsonarismo fez com o Brasil e o que o trumpismo tem feito não só com os Estados Unidos, mas com o mundo — um total desrespeito às leis internacionais e aos direitos humanos mais básicos, uma erosão sutil e violenta daquilo que nos mantinha minimamente humanos. O poder do seu voto, então, deixa de ser uma burocracia de domingo. Ele passa a ser um chamado desesperado à consciência democrática.
Votar não é apenas um direito mecânico, mas uma força de transformação social que nasce nas nossas entranhas. O voto espelha o que somos por dentro: nossas aspirações, nossos valores, as escolhas que fazemos quando ninguém está olhando.
Cada voto é uma declaração de intenções, um rascunho do futuro que ousamos desejar. Afinal, são os governantes eleitos que elaboram as leis que nos cercam, moldam as políticas que nos guiam e afetam diretamente a nossa vida e a das gerações que ainda nem sabem o que é nascer.
Ignorar esse poder — esse quase milagre de ter voz — é entregar o nosso destino a interesses alheios, à mercê de quem não nos conhece. Enfrentar os desafios que assolam a nossa época exige de nós algo muito mais profundo do que uma indignação passageira que se esgota na tela do celular. Exige a crueza da ação consciente. Manter-se informado, votar com o peso da responsabilidade, apoiar movimentos sociais e cobrar, com os dentes cerrados, a coerência dos eleitos. Esses são os atos fundamentais para a construção de um mundo que seja, finalmente, mais justo, inclusivo e resiliente.
Peço que você se lembre disso quando o dia das próximas eleições chegar. É preciso coragem para ver que a extrema direita simboliza, em sua essência, a destruição. Ela perpetua guerras que sangram a terra, sustenta o racismo estrutural, alimenta a homofobia covarde — tudo aquilo que já deveria ter sido digerido e deixado no passado, na vala da história. A democracia é um bicho frágil; ela só se mantém forte quando sustentada pelo engajamento vivo de seus cidadãos.
E você? O que vai fazer com o mistério desse poder que tem nas mãos?
Jamais esqueça os desafios e as injustiças destes tempos difíceis. O futuro não é um lugar aonde vamos chegar; ele depende, inteiramente, da nossa consciência hoje.
©️ Beatriz Esmer
