A Sagrada Responsabilidade de Estar Vivo

O relógio na parede insiste em seu tique-taque burocrático, mas o tempo da alma é outro, um tanto mais vasto e assustador. Olho para as minhas próprias mãos e me pergunto o que estamos fazendo com o mistério de estarmos vivos.

Eu penso que o propósito de viver não pode ser tão pequeno e limitado a buscas individualistas ou vaidosas…

A certeza disso ecoa como um baque surdo no peito. É verdade. Há um cansaço profundo em ver a humanidade rastejar atrás de vaidades miúdas, de palácios de vidro que qualquer vento de realidade pode quebrar. Passamos os dias decorando as paredes da nossa própria pequenez. Se a vida fosse apenas esse acúmulo de espelhos voltados para o próprio umbigo, ela seria um erro. Uma piada de mau gosto do universo.
Se nos fechamos no ego…

…ou continuaremos a viver e morrer em nossos próprios mundinhos, enquanto horrores continuam a assolar nosso lindo planeta… e os seres incríveis que vivem nele…

Existe uma dor muda que vem de fora, que atravessa a janela e invade a sala limpa. O mundo lá fora sangra. Criaturas magníficas — os bichos, as plantas, os próprios homens em sua pureza esquecida — sofrem sob o peso da nossa indiferença. Enquanto nos preocupamos com o orgulho, o planeta, em sua beleza dolorosa, padece. Viver enclausurado na própria pele, fingindo que o horror não existe, não é proteção. É uma forma lenta de morrer.

Sentir essa dor não é um ato de desespero; é, antes de tudo, o nascimento da consciência. É quando a casca quebra. Deus, afaste-nos da cegueira dos que se bastam. Que a nossa passagem por esta terra seja mais do que um monólogo egoísta. Que saibamos olhar para o outro, para o bicho, para a terra que se pisa, e sentir a sagrada e terrível responsabilidade de estar vivo. 🌎🐆🐘💧

© Beatriz Esmer

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