O Tic-Tac do Pertencimento

Procuro uma casa, mas não me venham com tijolos, não me tragam o peso morto da madeira assentada sobre a terra. O que busco não tem teto, tem mistério. Procuro um lugar de pertencimento, esse espaço perigoso e exato onde o ser simplesmente é, desdobrando-se em sua própria e dolorosa liberdade, até que a alma, cansada de si mesma, possa finalmente repousar.

Eu sinto — e Deus, como dói sentir — que não sou como os outros. Carrego em mim um ritmo desalinhado, uma luz oblíqua e quase insuportável que os olhos comuns não sabem ler. Que tipo de lar seria capaz de embalar essa minha diferença sem tentar sufocá-la? Que teto aguenta o peso de um milagre mudo?

Fico a pensar.

Quem sabe seja apenas um quarto modesto, metodicamente arrumado, preenchido por um silêncio macio e a calidez matinal de uma luz dourada que entra sem pedir licença.

Quem sabe seja uma casa pequena, dessas que se escondem do mundo, abraçada pelas árvores e pela solidão — aquela solidão grávida de nós mesmos.

Ou quem sabe, e isso me assusta pela vastidão, esse lar não esteja fixo em lugar nenhum. Talvez ele esteja espalhado, pulverizado em segredo pelas correntezas dos rios, pela indiferença bela dos campos e pela altura dos céus. Em cada canto onde a natureza sussurra um “entra, você é bem-vinda”, ali eu sou.

Mas há uma hipótese que me faz estremecer na cadeira. Talvez — e o talvez é sempre uma fresta para o abismo — essa casa viva na mais absoluta quietude. Não nas coisas, mas na carne. Salva e aquecida, muito silenciosamente, no calor do coração de alguém. E se for ali, como farei para entrar sem quebrar o outro?

©️ Beatriz Esmer

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