Às vezes, o outro falha. Falha tanto, e com uma insistência tão cruel, que nos deixa vazios. Entregamos o mundo inteiro em suas mãos — um mundo feito de carne, de tempo, de silêncio — e eles o rasgam. Rasgam sem pressa, como quem brinca com o que é sagrado. Fazem promessas que logo se partem no chão, com aquele barulho seco de vidro quebrado. E o que sobra de nós?
O espanto.
E, no entanto, há essa insistência quase
milagrosa — ou seria uma burrice da alma? — que nos faz continuar dando. Continuamos a estender as mãos, esperando que um dia, por algum mistério, o mundo nos seja devolvido intacto. É uma esperança boba, que dói no peito.
Foi por isso que comecei a escrever. Escrevo não para os outros, mas para resgatar o que me foi roubado. A palavra é o meu único território. Quando coloco o ponto final, é ali, e só ali, que eu consigo recolher os meus próprios pedaços e ter o meu mundo de volta.
© Beatriz Esmer
