O Avesso do Espelho

Agarrei-me a ilusões como se pudessem repousar no horizonte — mas o horizonte, sabe-se, é uma linha que foge quando a gente se aproxima. É o cansaço de ser eu que me faz assim: mestre em transmutar o insuportável. Transformo mentiras em verdades, ou pesadelos em sonhos bons, apenas porque a crueza das coisas me queima os olhos. É quase um milagre doméstico, essa alquimia de sobrevivência, mas que cobra o seu preço na carne.

Encanto-me com tantas reflexões e esqueço quem sou. Perco-me no labirinto dos meus próprios pensamentos, esses bichos soltos que me habitam. Olho para a parede e vejo telas, cores, traços espessos; ocupo-me com pinturas sem me perguntar quem é o artista. Que importa o autor quando a obra dói ou salva? O mundo exterior é um grande pretexto para a minha própria busca, uma busca cega, tateando no escuro da sala.

Viver dá uma náusea, uma queimação no estômago. Vou esquecendo a vida e ignorando o tempo, essa engrenagem fria que não se importa com os meus abismos. Há um cansaço que não é do corpo, é um desgaste da própria matéria de existir: consumindo a alma para caminhar sofrendo. Para quê? Para chegar a lugar nenhum, apenas pelo ato de continuar andando, arrastando o peso de ser bicho humano.

Mas há um limite para a dor que se repete. Uma hora a anestesia cansa.

E agora, diante do nada que me restou, faço questão de tentar trocar por qualquer novidade. Qualquer uma. Que venha o caos, que venha o inesperado, contanto que me tire desse trilho gasto. Quero o mistério no lugar de qualquer segredo que me distraia… O segredo é pequeno, humano, decifrável. O mistério, não. O mistério é o âmago do que não tem nome. É nele que me lanço, sem rede de proteção, para ver se finalmente nasço.

© Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.