Olhou-se no espelho e não se viu inteira; viu-se em estilhaços luminosos. Ela já se perdeu algumas vezes do caminho. Mas o que ninguém entende — e como poderiam? — é que perder-se é também uma forma de tatear as bordas da própria existência. Foi precisamente ali, quando estava perdida, que foi o momento em que ela se reconheceu mais. Há uma lucidez quase cruel no erro. Estar perdida é não ter amarras, e o vazio, ela sabia bem, é cheio de possibilidades.
Seus dias já foram mais carregados, pesados de uma matéria cinzenta e burocrática. Hoje, a carga mudou de lugar. Está guardada atrás dos olhos. Sua mente continua barulhenta, um zumbido constante, uma fresta aberta lhe lembrando das coisas que ela deixou de sonhar. Esquecer um sonho dói como um dente que nasce torto na alma. Mas ela não chora o que perdeu; ela engole o silêncio.
Sempre foi essa menina que sorri com os olhos, um sorriso que não pede licença, que olha com a alma e, por isso mesmo, assusta. Olhar demais para o mundo cansa as pálpebras. Ela aprendeu a tocar a vida não com as pontas dos dedos frios, mas que toca com o coração, o que é um perigo desnecessário, uma exposição demasiada da carne viva. Uma mulher que vai além do seu próprio limite, que rasga a pele do impossível só para ver o que tem do outro lado. Que se desafia.
Certa terça-feira, enquanto o café esfriava na xícara com uma película fina e triste, ela teve uma revelação súbita, uma epifania: ela cansou de esperar e foi buscar. A espera é um mofo que corrói os cantos da sala. Por isso ela passa apressada assim, um furacão que não pede desculpas pelo vento que faz. Anda falando rápido, engolindo as sílabas, com a cabeça em todo lugar e, paradoxalmente, em lugar nenhum. Existe uma urgência secreta em apenas ser.
É um paradoxo ambulante, um mistério insolúvel que ela mesma desiste de decifrar: desastrada e organizada. Derruba o copo de água, mas sabe exatamente em qual gaveta guardou a melancolia do ano passado. Às vezes mal humorada, com um azedume que nada mais é do que o cansaço de ter que ser humana o tempo todo.
Ao fim do dia, ela se despe não apenas das roupas, mas das expectativas alheias. Fica nua diante de sua própria imensidão. Dona da sua vida. Dona de si. E, num suspiro profundo que ecoa pelas paredes vazias do quarto, ela aceita o peso e a leveza de sua própria soberania: ela é, finalmente e sem tréguas, a dona da porra toda.
© Beatriz Esmer
