Eles estragaram o meu nome antes mesmo de me conhecerem. Deformaram-no em línguas estrangeiras, com olhos vazios, transformando o que em mim era sagrado em uma piada de mau gosto. E bastou. Como basta pouco para que o outro sangre uma crueldade sem porquê. Esculpiram o julgamento na carne de alguém cuja única audácia era essa: existir, ter um nome, estar viva. Eu nunca vou compreender essa espécie de maldade faminta, essa urgência em diminuir o tamanho de uma alma.
Cada vez que eu caio, há sempre alguém pronto para me esmagar um pouco mais contra o chão. Como se a minha dor fosse um brinquedo que lhes coube por direito. As palavras… elas machucam de um jeito que a matéria não alcança; hematomas na alma demoram séculos para virar pele de novo. Já cheguei a pensar que o impacto seco do concreto seria mais suportável do que ouvir que a minha paixão — que é o meu núcleo, a minha própria saliva — não vale nada. O mundo me ensinou, a contragosto, que o ódio é barulhento, insistente e, Deus meu, quase sempre gratuito. E mesmo quando o amor me cerca como um abraço quente, eu cometo o erro de sintonizar na única frequência que dói. Naquela voz subterrânea que sussurra: você nunca será o bastante.
Mas o meu pai, certa vez, me desarmou com o avesso de tudo. Ele me disse que a vingança não é feita de fogo e fúria, mas de triunfo. “Mostre a eles”, ele disse, “não com raiva, mas com a sua própria perfeição”.
Então eu me levanto. Repetidas vezes, cansaço sobre cansaço. Não para provar o erro alheio — que o erro dos outros não me pertence —, mas para constatar a minha própria verdade. Para lembrar que o amor não é espetáculo, não é sexo, não é posse. O amor é essa resiliência silenciosa de escolher a si mesma quando o mundo lá fora faz barulho demais. A solidão, descobri, pode ser um santuário. Olhar no espelho e suportar — e amar — o próprio reflexo é a nossa insolência mais bonita. É a nossa maior rebeldia.
Que falem, então. Que cuspam, que escarneçam, que sorriam aquele sorriso pequeno de quem assiste da beira da estrada. Eu passarei carregando as minhas feridas como se fossem medalhas de ouro. Eu sou a minha melhor amiga, a testemunha do meu próprio milagre, a minha campeã. E se eu amo o que faço, se consigo olhar para dentro e sentir esse orgulho misterioso e pleno… então veredicto nenhum que venha de fora terá o peso ou a audácia de esmagar o mistério da minha própria verdade.
©️ Beatriz Esmer
