Além de mim mesma

Além de mim mesma, em algum lugar, eu espero pela minha própria chegada. O mundo gira, as estações mudam com sua indiferença cronológica, e no entanto meu coração permanece amarrado àquele horizonte distante. Ali, no brilho difuso da possibilidade, anseio pelo toque do destino — uma promessa sussurrada que desafia o tempo e a distância. É quase insuportável esse quase.

Nesta expectativa silenciosa, que não é mudez, mas excesso de voz interna, torno-me simultaneamente a que procura e a que é procurada. Meus passos traçam caminhos invisíveis sobre a tela áspera da existência, tateando o eco da sua presença. Seria o fado ou a pura tolice que me prende a esse anseio? Talvez ambos, pois o amor desdenha da lógica; ele conhece apenas a dor física da ausência, essa substância espessa que preenche os dias.

Pergunto-me: o que há por trás do pensamento? É a própria vida se pensando?

As estrelas conspiram. Elas tecem constelações que desenham o mapa do nosso desejo compartilhado. Toda noite, elas confiam segredos à lua, que os guarda com sua soberana e prateada graça. E assim, eu espero — sendo eu mesma o próprio tempo que passa. Meu coração é uma bússola desgovernada, minha alma um navio à deriva no mar bravio da possibilidade. Viver é um ato de coragem perigoso.

Além de mim mesma, em algum ponto exato do infinito, você existe. É um fantasma, uma musa, um sonho que me habita mais do que eu mesma. Imagino o sobressalto do seu riso, a curva exata dos seus lábios, o modo absurdo como seus olhos guardam galáxias inteiras dentro de suas profundezas escuras. Você é o verso que falta na minha canção nunca escrita, a pincelada violenta e final em uma tela que insiste em ficar inacabada.

E então, eu espero. Com uma paciência que me rói por dentro. Com uma impaciência que me paralisa. Espero pelo instante milagroso em que o tempo se dobra sobre si mesmo e as nossas almas colidem com a violência de um nascimento. Quando o universo inteiro finalmente cansar de se calar e conspirar para nos reunir. É quando, enfim, darei o salto definitivo: darei o passo além de mim mesma, caindo, sem medo, nos braços do destino.

© Beatriz Esmer

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