Seguro o amanhecer nas palmas das mãos, esse calor suave que é constante no fluxo e refluxo da vida, tal como o amor que sinto pelos meus. É um laço tecido de risos compartilhados e acenos silenciosos, uma conexão que dispensa palavras, pedindo apenas a presença — o mistério de estar junto.
Os azuis do céu são as minhas emoções expostas; o cerúleo é o meu riso sob o sol, o índigo é a minha reflexão profunda do crepúsculo. Cada matiz é um verso na história da minha vida, uma narrativa que se conta em cores, porque an alma também tem a sua própria paleta.
Ao ficar nua sob o sol, dispo-me das camadas que o mundo impõe, revelando a alma ao cosmos. O carinho do sol, tão primal, tão familiar, desperta em mim ritmos ancestrais, conectando-me à essência mesma do que é existir. E eu existo.
O verão está em minhas mãos enquanto debulho o milho, o cheiro defumado do molho de churrasco impregnado nos dedos. É o riso ao redor da grelha, a sinfonia dos prazeres simples que definem o calor da estação. É a vida, em sua glória cotidiana, sendo mastigada.
Falo da morte não como um fim, mas como um horizonte, a promessa de novos começos. É o silêncio após a última nota da música, a pausa necessária na melodia da existência, onde o medo cede lugar a uma paz que eu ainda estou aprendendo a nomear.
Sagrado para mim é o bater rápido das asas do beija-flor, as cidades que pulsam com vida — a vibração de São Paulo, as aspirações de Nova York, o caos colorido de Nova Déli, o ar perfumado de Marrakech. Cada lugar, uma batida no coração do mundo.
No meu reino, não é a cabeça ou o coração que governa, mas um conselho harmonioso de ambos. Eles governam os fogos e as chuvas dentro de mim, o toque que cura, os cotovelos e joelhos que se roçam em conforto, essa coisa bagunçada que é ser humano e ter tanta fome de vida.
© Beatriz Esmer
