Ele prometeu o mundo e o fundo. E o que é o mundo senão uma forma desesperada de nos conter? Ele lambia meus poemas como quem saboreia uma fruta proibida, roçava meus devaneios literários com uma volúpia que, hoje percebo, não era desejo, era voracidade. Eram tantos adjetivos adjetivando minhas pinceladas, minha feminilidade, e até mesmo a minha voz rouca de cantora de cabaré — essa voz que, por ser rouca, sempre soube demais sobre o silêncio.
Eu me deixava envolver. Por um instante, acreditei que ser assim, tão minuciosamente observada, era ser amada. Erro crasso. O olhar dele não me via; o olhar dele me cartografava.
No final, ele foi o pior. Não pelo que fez, mas pelo que ele era na sua própria essência estagnada. Ele vivia em um sistema feudal, um patriarcado de alma curta, onde a posse é a única linguagem que os homens entendem. Ele caminhava pela minha vida com botas pesadas, achando que meu corpo era o seu território, uma terra virgem que ele precisava demarcar, cercar, conquistar.
Ele queria a geografia da minha pele, mas temia a topografia do meu espírito.
E, no fim, foi apenas mais um. Mais um a reivindicar minha alma livre, mais um a querer domesticar meu coração selvagem que, coitado, nunca aprendeu a viver em cativeiro. Ele não queria uma mulher; ele queria um feudo. E eu, que sempre fui o meu próprio deserto, não podia caber dentro das cercas que ele, com tanta arrogância, tentou erguer ao redor do meu ser.
© Beatriz Esmer
