Eu não caberia nunca na moldura de um substantivo. Tentar me definir é como tentar segurar o vento entre os dedos: no momento em que aperto, o vento já se tornou outra coisa, já passou, já é o agora que foge.
O que eu sou? A pergunta me olha com a insistência de um espelho vazio. Mas, se me calo, se permito que o ruído do mundo se dissolva, eu sinto. Ah, eu sinto uma vastidão que não tem nome, um alargar-se dos sentidos que ultrapassa a pele. É que eu não sou uma coisa feita, pronta, com etiqueta de preço ou de serventia. Eu sou a liberdade espaçosa da Vida Una.
Sinto-me, por vezes, um mistério que eu mesma tento decifrar, mas que, na sua sabedoria, se recusa a ser lido. Marginalizar-me? Categorizar-me? Seria o mesmo que tentar encerrar o oceano em um copo d’água. Eu sou o transbordar. Sou a Consciência Infinita que, em um gesto de audácia, decidiu experimentar a forma, o peso, o pulso, o instante.
Não sou o que esperam que eu seja, nem sou o que eu mesma escrevo sobre mim quando tento me explicar. Eu sou o que resta quando todas as palavras se calam. Sou essa pulsação crua, esse átomo que reconhece o cosmos porque, na verdade, nunca deixou de ser ele.
É perigoso, talvez. É vasto demais para quem gosta de certezas. Mas é a única verdade que me cabe: eu sou, simplesmente, a manifestação do tudo, num momento único e irrepetível de ser.
© Beatriz Esmer
