O Funeral da Bola: A Crônica de uma Derrota Anunciada

O Brasil não perdeu apenas um jogo; o Brasil perdeu a sua alma, o seu destino, a sua própria biografia. O que assistimos hoje, com um cinismo que faria o próprio Mefistófeles corar, é o óbvio ululante: o futebol brasileiro, antes uma epopeia de deuses de chuteiras, transformou-se num balcão de negócios, numa repartição pública da mediocridade.

Onde outrora víamos o drible como um ato de rebeldia, hoje vemos o cálculo frio do marqueteiro. O jogo tornou-se um subproduto das bets, essa febre que transformou o torcedor em apostador, e o estádio, em uma casa de câmbio barulhenta. O dinheiro infame, esse senhor absoluto de todas as nossas misérias, estrangulou o futebol-arte. Enterramos o drible desconcertante sob uma montanha de planilhas e o pragmatismo estéril de um neoliberalismo que não entende que a bola, em sua essência, exige a gratuidade do gênio.

E há os bufões. Ah, esses patriotas de vitrine, que confundem amor à pátria com uma pantomima ensaiada para redes sociais! Eles não amam a camisa; amam o meme, o engajamento, a repercussão estúpida que substituiu o suor e a lágrima do craque. Negam o óbvio, negam a decadência com uma cara de pau que desafia a lógica e a história. Têm o desdém de quem nunca viu um craque subir aos céus, de quem acha que o futebol se ganha com estratégia de influencer.

Os deuses do futebol — esses seres implacáveis, que habitam o panteão onde só entra o que é autêntico — não perdoam. Eles olham lá de cima para essa nossa soberba de opereta e cobram o preço. O futebol não é um negócio, é um estado de espírito, um destino metafísico. Enquanto o Brasil for governado pelos oligarcas do lucro imediato e pela falta de vergonha de negar o que nos tornou grandes, seremos apenas um ajuntamento de homens correndo atrás de um prejuízo que não tem fim.

O Brasil perdeu a sua alegria porque vendeu o seu sagrado por trinta moedas de apostas esportivas. E a tragédia, meus amigos, é que, no fundo, já sabíamos que isso aconteceria. O óbvio, por mais que tentem escondê-lo sob memes e marketing, sempre acaba por nos esmagar.

© Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.